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A Pimenta Queimada na Brasa
A piperina no calor · Só o sal antes · O moedor no fim
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Moedor de pimenta e sal grosso ao lado da carne
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Tire o moedor de pimenta de perto da churrasqueira e leve só o pote de sal para o lado do fogo. A pimenta volta para a bancada e entra depois, com a crosta já feita, ou moída direto na fatia dentro do prato.
A pimenta do reino moída não aguenta a temperatura da brasa direta. A superfície da grelha sobre carvão em brasa passa dos 250 graus com facilidade, e a pimenta em pó começa a escurecer e amargar muito antes disso.
O que amarga não é a carne, é o tempero. O grão moído tem óleo, resina e fibra, e cada um deles reage ao calor alto em uma velocidade diferente, sempre mais rápido do que a proteína embaixo.
O sal não tem esse problema. Cloreto de sódio é um mineral que só derrete perto dos 800 graus, e nenhuma churrasqueira doméstica chega perto disso na superfície da grelha.
Daí a divisão de trabalho que a casa usa. Antes do fogo, sal sozinho. Depois da crosta formada, o resto do tempero, inclusive a pimenta moída na hora.
Quem inverte a ordem sente o resultado na primeira garfada. A crosta fica com um fundo áspero e queimado, meio terroso, que o convidado costuma culpar no carvão barato ou na carne de mercado.
O defeito é discreto justamente por ser pequeno. Um quilo de carne carrega talvez dois gramas de pimenta, e dois gramas de pó queimado bastam para deixar um gosto amargo em cima de tudo.
Pior ainda: a pimenta queimada perde o que ela tinha de bom. O ardor e o perfume vão embora com a fumaça, sobra a parte amarga, e o cozinheiro que provou fica achando que precisa de mais pimenta.
Existe uma exceção, e ela é sobre grão inteiro. A pimenta em grão, com casca fechada, aguenta bem mais calor que a mesma pimenta moída, porque o óleo dela está protegido dentro do grão.
Comece pela molécula que faz o ardor, pelo que o calor alto faz com ela e pela diferença brutal entre o grão fechado e o pó solto na superfície da carne.
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I O Corte de Hoje
A piperina não aguenta a brasa direta
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Piperina é o composto que faz a pimenta do reino arder. Ela é um alcaloide, mora principalmente na casca escura do grão, e é ela que dá a picância seca que a pimenta deixa na língua.
Ao lado da piperina existe um segundo grupo, os óleos essenciais. São os voláteis que fazem o cheiro de pimenta recém moída, aquele perfume cítrico e amadeirado que aparece quando o moedor gira.
Os dois se comportam de modo diferente no calor. Os voláteis evaporam cedo, com o calor moderado do início. A piperina resiste mais tempo, mas se degrada quando a temperatura sobe demais.
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Pimenta moída na carne antes da brasa perde o perfume e ganha amargor: o volátil vai embora e o pó fica.
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Junto com esses dois vem a fibra do grão, a parte sólida. Fibra vegetal em pó, encostada numa superfície acima dos 200 graus, faz o que qualquer material vegetal fino faz: escurece, carboniza e vira fuligem.
Essa fuligem é a origem do gosto. Não é a pimenta que ficou forte demais, é a casca do grão que virou carvão fino grudado na crosta da carne.
A CONTA DA SUPERFÍCIE
Brasa direta trabalha numa faixa alta. A grelha sobre carvão vivo, na altura de doze centímetros, entrega calor suficiente para dourar carne em dois minutos por lado, e o que doura carne assim torra pimenta em pó em segundos.
| moída, na superfície da carne crua |
escurece, perde aroma e deixa amargor |
| moída, em cima de crosta já formada |
aquece de leve, mantém ardor e cheiro |
| em grão inteiro, quebrado grosso |
resiste bem mais, casca protege o óleo |
| moída, na fatia já servida no prato |
perfume máximo, ardor limpo |
O teste é fácil de fazer em casa. Moa pimenta numa colher, leve a colher perto da brasa por meio minuto e cheire: o perfume some e sobra um cheiro seco de torrado.
Repita com a mesma pimenta moída sobre uma fatia quente que saiu da grelha. O aroma sobe com o vapor da carne, o ardor aparece inteiro e nada disso lembra fuligem.
A mesma lógica vale para todo tempero em pó com óleo e fibra. Páprica, orégano seco, alho em pó e cominho seguem o mesmo caminho: queimam antes da carne dourar e deixam amargor na crosta.
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II A Preparação
O sal encara o fogo sozinho
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Antes da carne encostar na grelha, o tempero é um só. Sal grosso ou sal de parrilla, distribuído na superfície com a mão a uns trinta centímetros de altura para cair espalhado.
A quantidade é fácil de guardar. Uma colher de sopa rasa de sal grosso por quilo de carne cobre bem uma peça de três centímetros de espessura, e o excesso cai sozinho quando a peça vira.
O sal faz três trabalhos no fogo alto que a pimenta não faz. Ele dissolve na umidade da superfície, ajuda a secar a camada externa e não deixa nenhum resíduo queimado atrás de si.
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“O aroma da pimenta do reino vem de óleos voláteis que se perdem com o calor e com o tempo, enquanto a picância da piperina é bem mais estável.”
Harold McGee, On Food and Cooking, 2004
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Sal fino e sal grosso não se substituem aqui. O fino dissolve rápido demais e sala em excesso, o grosso demora e cai da peça, então a escolha da casa é o sal de granulação média, o de parrilla.
Se a receita pede pimenta desde o começo, use o grão inteiro quebrado. Amasse com o fundo de uma panela até virar pedaço grosso, e não pó, porque o pedaço grosso mantém a casca fechando o óleo por dentro.
Grão quebrado grosso pede pressão para colar. Aperte a carne contra os pedaços na tábua, com a palma da mão, para eles entrarem na superfície em vez de ficarem soltos esperando para cair na brasa.
O TEMPERO NA ORDEM CERTA
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Secar a superfície da carne com papel toalha, dez minutos antes do fogo. |
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Salgar com uma colher de sopa rasa por quilo, sal de granulação média, a trinta centímetros de altura. |
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Levar para a brasa direta e formar crosta nos dois lados, sem tocar em pimenta. |
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Tirar do fogo alto e moer a pimenta na hora, cinco voltas de moedor por quilo de carne. |
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Fatiar e oferecer o moedor na mesa, para quem quiser mais no próprio prato. |
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Pimenta no fogo alto some por dentro e amarga por fora: o cozinheiro perde os dois lados do tempero.
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O moedor na mesa resolve um problema social, além do técnico. Cada convidado tem tolerância própria ao ardor, e a peça temperada por igual obriga todo mundo a comer no ponto de picância de quem cozinhou.
Moedor manual sempre, nunca pimenta já moída de saquinho. A pimenta pré moída perdeu os voláteis semanas atrás na prateleira do mercado, e o que resta dela é ardor seco sem aroma nenhum.
O ajuste do moedor também conta. Regulagem grossa entrega pedaços que estouram na mordida, regulagem fina entrega uma camada uniforme; para carne fatiada, a grossa se sai melhor porque o ardor aparece em pontos, não em bloco.
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