|
|
Monóxido na Varanda Envidraçada
O gás que a brasa não mostra · A varanda preparada antes do fogo · Coifa ligada até a última brasa
|
Vidro aberto, coifa ligada, brasa acesa
|
| ▼ |
|
Domingo, oito da noite, décimo segundo andar. A picanha saiu faz meia hora, a família já está na sala, e a churrasqueira da varanda continua com um monte de carvão vermelho no fundo. Lá fora esfriou, então alguém fechou o envidraçamento inteiro para o vento parar de entrar. A coifa foi desligada junto, porque o barulho atrapalhava a conversa.
Ninguém sente cheiro diferente. A fumaça sumiu faz tempo, a brasa não solta chama, e a varanda parece o lugar mais tranquilo do apartamento. Mesmo assim, o carvão segue queimando, e cada pedaço aceso continua mandando gás para o ar parado presos pelos vidros. O único aviso possível viria de um aparelho pendurado na parede da sala, e o apartamento não tem nenhum.
Metade da graça do churrasco de apartamento está justamente nessa varanda. O prédio novo entrega a churrasqueira de tijolo pronta, o condomínio libera o envidraçamento, e o morador ganha um espaço que funciona o ano inteiro, com chuva ou frio. O vidro que protege do vento também segura tudo que a brasa solta.
O perigo raramente aparece na hora de assar. Com a carne na grelha, o churrasqueiro está de pé, a porta da sala aberta, gente entrando e saindo, e a coifa ligada por causa da fumaça da gordura. O risco cresce depois, quando a fumaça visível acaba e todo mundo relaxa, com a brasa ainda ativa por uma hora ou mais.
Quem cuida da varanda com dois hábitos simples resolve o problema: um vão de vidro sempre aberto e a coifa trabalhando do acendimento à última brasa apagada. Os dois custam quase nada e não mudam o sabor da carne.
Para entender por que o vidro fechado pesa tanto, vale olhar primeiro para o gás que a brasa solta quando falta ar, e a primeira faixa começa por ele.
Continue lendo ↓
|
|
I O Corte de Hoje
O gás que a brasa não mostra
|
|
O gás em questão é o monóxido de carbono, de fórmula CO (uma molécula com um átomo de carbono e um de oxigênio). Ele nasce sempre que o carvão queima sem oxigênio suficiente para virar gás carbônico, o CO2, que tem dois átomos de oxigênio e é bem menos perigoso em ambiente aberto.
Numa brasa bem ventilada, a maior parte do carbono encontra oxigênio de sobra e sai como CO2. Quando o ar em volta fica parado, o oxigênio perto do carvão vai acabando, e a queima passa a soltar mais monóxido. Varanda fechada com vidro cria esse ar parado sem ninguém perceber.
SEM COR, SEM CHEIRO, SEM AVISO
O monóxido não tem cor, não tem cheiro e não irrita os olhos. A fumaça que arde e faz tossir vem de gordura pingando, de madeira e de partículas, e ela vai embora cedo. O monóxido continua saindo da brasa limpa, vermelha e sem chama, a fase que parece mais inofensiva.
Daí o nariz não serve como alarme. Quem espera sentir cheiro de fumaça para abrir o vidro está vigiando o sinal errado. A brasa mais bonita, aquela que brilha laranja e quase não solta fumaça, é justamente a que já passou da fase visível e segue produzindo gás.
O QUE O GÁS FAZ NO CORPO
No pulmão, o monóxido se prende à hemoglobina (a proteína do sangue que carrega oxigênio) com muito mais força do que o próprio oxigênio. O resultado se chama carboxiemoglobina, a hemoglobina ocupada pelo monóxido, que deixa de levar oxigênio para o cérebro e o coração.
Os primeiros sinais parecem cansaço de fim de festa: dor de cabeça, tontura, enjoo, sono pesado. Como aparecem depois de horas de comida e bebida, quase ninguém liga ao carvão. Crianças, idosos, grávidas e animais de estimação sentem antes e com mais força, porque respiram mais rápido ou têm menos reserva.
|
O gás mais perigoso da varanda sai da brasa que já parou de fumar.
|
Quando os sintomas aparecem em mais pessoas da casa ao mesmo tempo, a causa provável está no ar. A resposta certa é abrir todos os vidros, tirar todo mundo para um cômodo arejado e ligar para o SAMU, no 192, se alguém estiver confuso, muito sonolento ou desmaiar.
|
|
II A Preparação
A varanda preparada antes do fogo
|
|
A segurança da churrasqueira de apartamento se resolve na montagem da varanda, bem antes do carvão acender. Três peças fazem o trabalho: o duto da churrasqueira, a coifa e um vão permanente no vidro.
A maioria das churrasqueiras de prédio tem um duto de tijolo ou metal que sobe até o telhado ou até uma saída na fachada. Esse duto funciona por tiragem (a corrente de ar que o calor da brasa puxa para cima). Ar quente sobe pelo duto, e ar fresco precisa entrar por algum lugar para ocupar o espaço.
SEM ENTRADA DE AR, O DUTO PARA
Com o envidraçamento todo fechado, a varanda vira uma caixa. O duto tenta puxar, mas nenhum ar novo entra para repor, e a tiragem enfraquece. A fumaça e o gás que deveriam subir começam a escapar pela boca da churrasqueira, para dentro da varanda e, pela porta da sala, para dentro do apartamento.
A coifa (o exaustor em cima da churrasqueira, com motor e duto próprio) ajuda a puxar, mas sofre do mesmo problema. Exaustor que não recebe ar novo gira e faz barulho sem tirar quase nada. Coifa ligada com o vidro fechado dá a falsa sensação de que o ar está sendo trocado.
A saída é deixar um vão aberto no envidraçamento durante todo o uso, de preferência na folha mais próxima da churrasqueira. Um palmo aberto, na altura do corpo, já cria a entrada que o duto e a coifa precisam. Em dia de vento forte, abra a folha do lado protegido, sem fechar tudo.
O QUE CONFERIR NA VARANDA
Antes do primeiro churrasco da temporada, vale passar uma lista curta:
| 1 |
Acenda uma folha de jornal na churrasqueira fria e veja se a fumaça sobe pelo duto ou volta para a varanda. |
| 2 |
Ligue a coifa e confira se ela puxa o papel ou a fumaça com o vidro entreaberto. |
| 3 |
Limpe o filtro de gordura da coifa, que entupido corta boa parte da sucção. |
| 4 |
Escolha a folha de vidro que ficará aberta e deixe um calço para ela não fechar com o vento. |
| 5 |
Instale um detector de monóxido de carbono na parede da sala, perto da porta da varanda. |
O detector custa pouco em loja de material elétrico e faz o trabalho que o nariz não faz. Ele apita quando o gás se acumula, mesmo sem nenhum sinal de fumaça. Troque a bateria uma vez por ano e teste o botão antes da temporada de churrasco.
A limpeza do duto também entra na conta. Fuligem e gordura grudadas por dentro estreitam a passagem e diminuem a tiragem. Nos prédios, a limpeza do duto coletivo costuma ficar com o condomínio, e vale perguntar ao síndico quando foi feita a última.
|
|