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O Frango Que Assa Deitado
Dois cortes rente à espinha · O frango achatado na tábua · Cinquenta minutos longe da brasa
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O frango aberto, pronto para a grelha
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Coloque um frango inteiro de 1,8 quilo na grelha, de pé, com as asas para cima, e espere uma hora e meia. Quando o peito marca 70 °C no termômetro, a coxa ainda sangra perto do osso. Quando a coxa enfim fica pronta, o peito já passou do ponto e esfarela na boca como papelão molhado. O churrasqueiro culpa o carvão, culpa o frango, culpa a grelha. O culpado é o formato da ave.
Frango inteiro é uma bola oca. O peito fica no alto, grosso e exposto, e as coxas ficam dobradas para baixo, encostadas na carcaça, meio escondidas do calor. Dentro dessa bola existe uma cavidade vazia que o calor mal atravessa. Cada parte recebe uma dose diferente de energia, e as duas partes pedem pontos diferentes: o peito seca acima de uns 70 °C, e a coxa só fica macia perto dos 80 °C, quando o tecido conjuntivo (a parte fibrosa que prende a carne ao osso) amolece.
A solução vem de uma tesoura de cozinha e de dois cortes. Você retira a espinha, abre a ave como um livro e aperta o peito com a palma até ouvir o estalo do osso do meio. O frango deita na grelha com a espessura parecida de ponta a ponta. As coxas ficam viradas para fora, mais perto do calor, e o peito fica no centro, mais protegido.
O nome da técnica em inglês é spatchcock (frango aberto em borboleta) e, no Brasil, muita gente chama de frango espalmado. O resultado cabe numa conta simples: cerca de 50 minutos na zona indireta (a parte da grelha que fica fora da vertical do carvão), coxa pronta e peito suculento no mesmo minuto.
Ninguém precisa de faca de açougueiro nem de prática de restaurante. Precisa saber onde a tesoura entra, e a espinha tem um caminho certo para sair.
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I O Corte de Hoje
Dois cortes rente à espinha
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Vire o frango de peito para baixo na tábua, com o rabo apontando para você. A espinha fica bem no centro das costas, uma fileira de vértebras que sai do pescoço e termina no rabo. Ela tem de 3 a 4 centímetros de largura, e a sua tarefa é tirar essa tira inteira com dois cortes paralelos, um de cada lado.
Use tesoura de trinchar, aquela de lâmina curta, grossa e com mola. Tesoura de papel dobra na segunda costela e escorrega na gordura. Encaixe a ponta ao lado do rabo e vá subindo rente às vértebras, cortando as costelas pequenas uma por uma. O barulho é de galho seco quebrando, e a resistência maior aparece perto da coxa, na junta do quadril.
ONDE A TESOURA TRAVA
A junta do quadril é o ponto em que quase todo mundo desiste e puxa a faca. Não precisa. Mantenha a lâmina colada na espinha e aperte a tesoura com as duas mãos. Se ela travar, recue 1 centímetro e entre de novo, um pouco mais rente ao osso. Faça o segundo corte do lado oposto, também do rabo para o pescoço, e a tira sai inteira na sua mão.
Com a ave ainda de peito para baixo, abra as duas metades como um livro. No centro aparece um osso branco em formato de quilha de barco: é o esterno (o osso do peito), coberto por uma cartilagem mais escura. Faça um pequeno corte na membrana sobre ele e vire o frango de pele para cima.
Agora vem o gesto que dá nome ao método. Espalme a mão sobre o peito, apoie a outra por cima e empurre com o peso do corpo. O esterno estala e cede, e o frango deita na tábua. A altura do peito cai para perto da altura da coxa, e a ave inteira passa a ter uma espessura parecida.
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A preparação em borboleta coloca as coxas, que precisam de mais calor, na borda mais quente, e o peito, que seca fácil, no centro protegido.
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“Espalmar o frango é a técnica que mais melhora o frango assado, porque expõe as partes escuras ao calor e deixa o peito cozinhar mais devagar.”
J. Kenji López-Alt, The Food Lab, 2015
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O efeito vai além da geometria. Na ave de pé, a pele de baixo fica colada na grade ou escondida dentro da cavidade. Aberta, toda a pele fica voltada para cima, numa camada lisa e contínua. E a cavidade vazia, que atrasava o calor, simplesmente deixa de existir.
| Frango |
Espessura maior |
Tempo na zona indireta |
| Inteiro, de pé |
cerca de 12 cm no peito |
80 a 100 minutos |
| Aberto em borboleta |
cerca de 6 cm no peito |
45 a 55 minutos |
Os dois cortes tiram metade da altura da ave. O resto do trabalho acontece na tábua, antes do fogo.
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II A Preparação
O frango achatado na tábua
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Seque o frango aberto com papel toalha, por cima e por baixo, até a pele ficar opaca. Água na superfície gasta energia virando vapor e rouba minutos da grelha. Depois espete a ponta de cada asa para dentro, atrás do ombro, dobrando-a sobre si mesma. A ponta fina da asa é a primeira parte a queimar, e escondida atrás do ombro ela chega inteira.
Tempere nas duas faces. Pelo lado de dentro, sem pele, o sal entra direto na carne e faz o trabalho mais rápido. Uma medida prática é 1 colher de chá rasa de sal grosso moído por quilo de frango, espalhada por igual, mais pimenta-do-reino e alho amassado se quiser.
O SAL COM ANTECEDÊNCIA
Salgue com pelo menos 1 hora de antecedência, e o ideal é de véspera, na geladeira, com o frango sem cobertura sobre uma grade. No começo o sal puxa um pouco de líquido para fora. Depois de algumas horas, esse líquido salgado volta para dentro da carne e tempera o peito por inteiro, não só a casca.
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Retire a espinha com os dois cortes de tesoura, do rabo ao pescoço. |
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Abra a ave, corte a membrana do esterno e vire de pele para cima. |
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Aperte o peito com as duas mãos até o osso ceder e o frango deitar. |
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Seque as duas faces com papel toalha e dobre as pontas das asas. |
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Salgue por dentro e por fora e leve à geladeira sem cobrir. |
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Tire da geladeira 30 minutos antes de ir para a grelha. |
Atravesse o frango com dois espetos de metal em X, cada um entrando pela coxa de um lado e saindo pela asa do lado oposto. Os espetos travam a ave aberta. Sem eles, as coxas fecham no calor, o frango volta a se curvar e a espessura desigual retorna.
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Frango espetado em X não fecha na grelha e ainda vira inteiro num movimento só, com um único par de luvas, sem rasgar a pele.
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Os espetos ajudam na hora de virar e de tirar do fogo. Uma pinça sozinha rasga a carne perto do osso, e com o X a mão levanta a ave inteira pelas pontas.
Confira a espessura antes de levar ao fogo. Passe a mão aberta sobre o frango: o ponto mais alto, no peito, deve ficar parecido com a parte mais grossa da coxa. Se o peito ainda estiver bem mais alto, volte a pressionar o esterno. Essa conferência de 10 segundos decide se o frango vai assar por igual.
Frango seco, salgado, travado em X e plano. Falta montar o fogo que respeita essa geometria.
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