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A triquinose (infecção causada pela larva do verme Trichinella spiralis, que se aloja no músculo do porco) foi por muito tempo o motivo de o lombo ir à mesa seco. A larva vive enrolada num casulo dentro da fibra da carne. Quem come a carne crua engole o casulo, e o verme se instala no intestino e depois nos músculos da pessoa.
Nos Estados Unidos da primeira metade do século 20, a doença era comum. Porcos criados com lavagem crua (sobra de comida dada aos animais sem ferver) pegavam o parasita de restos de carne contaminada misturados ao lixo, e a larva seguia do cocho pra mesa.
A resposta das cozinhas foi calor de sobra. A recomendação oficial americana fixou o porco em 160 graus Fahrenheit, os 71 graus Celsius, uma margem larga acima da temperatura que inativa a larva. Ninguém errava por falta de cozimento; o erro morava do outro lado.
O QUE MUDOU NO CHIQUEIRO
Na segunda metade do século, leis estaduais americanas proibiram alimentar porco com lavagem crua, e a criação passou pra galpões fechados, com ração industrial e controle sanitário. O ciclo do verme dependia da carne crua no cocho. Sem ela, a triquinose quase desapareceu do porco de granja.
O CDC (centro de controle e prevenção de doenças dos Estados Unidos) publicou em 2015 um levantamento com 90 casos de triquinose no país entre 2008 e 2012. A maior parte veio de carne de caça, principalmente de urso, e não de porco comprado em mercado.
A NOTA DE 2011
Em maio de 2011, o FSIS (serviço de segurança e inspeção de alimentos, ligado ao departamento de agricultura dos Estados Unidos, o USDA) baixou a meta dos cortes inteiros de porco de 71 para 63 graus, com 3 minutos de descanso fora do fogo. Lombo, pernil, costela e bisteca entraram na regra nova.
A carne moída ficou com os 71 graus antigos. Na moagem, a superfície da peça, onde a bactéria mora, vai parar dentro da massa, e o centro do hambúrguer precisa do calor que o miolo de um lombo inteiro dispensa.
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O número de 71 graus protegia o lombo de um verme que a granja moderna já tinha tirado do chiqueiro.
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A mesma nota juntou porco, boi, vitela e cordeiro na meta única de 63 graus com descanso. O porco deixou de ter regra própria, mais rígida, e passou a ser tratado como as outras carnes de corte inteiro.
No Brasil não existe nota equivalente pra cozinha de casa. O número americano virou referência de cozinheiros e fabricantes de termômetro por aqui, porque a criação comercial brasileira segue o mesmo modelo de granja fechada e ração.
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