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Vinagrete Sem Água no Fundo
O tomate por dentro · Colher na semente, faca no cubo · Sal na hora da mesa
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Tomate sem semente, sal só na mesa
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Domingo, meio-dia. A picanha descansa na tábua, o pão de alho estala na grelha, e a tigela de vinagrete que saiu da cozinha às onze já não parece a mesma. Os cubinhos de tomate afundaram, a cebola boia, e no fundo sobra um dedo de líquido rosado que ninguém pediu.
Quem serve com a colher percebe primeiro. A porção chega ao prato escorrendo, molha a farofa, amolece o pão e deixa uma poça vermelha em volta da carne. Na segunda rodada, o vinagrete parece uma sopa fria de tomate com pedaços boiando.
A cena se repete em quase todo churrasco de família, e a culpa costuma cair no tomate. Tomate aguado, tomate de mercado, tomate fora de época. A fruta pesa, mas a maior parte daquela água saiu dela por dois motivos que a cozinha controla.
O primeiro está dentro do fruto. Em volta das sementes existe uma geleia mole e transparente, a parte mais molhada do tomate, que se solta sozinha assim que a faca abre os gomos. Picado inteiro, o tomate leva essa geleia junto para a tigela.
O segundo motivo é o saleiro. O sal jogado cedo, ainda na cozinha, começa a puxar líquido da polpa em poucos minutos. Quando a tigela chega à mesa, uma parte boa da água do tomate já trocou de lugar: saiu dos cubinhos e foi parar no fundo.
A solução custa dois gestos. Tirar as sementes com a ponta da colher antes de picar, e guardar o sal para o instante de servir. O vinagrete continua com tomate, cebola, pimentão, cheiro-verde, vinagre e azeite, e fica crocante do primeiro ao último prato.
Tem ainda um ganho de sabor. Sem a geleia diluindo o tempero, o vinagre e o azeite grudam no tomate firme, e cada colherada chega com o mesmo gosto, sem caldo lavando a cebola e o pimentão.
Tudo começa na banca da feira e na tábua, com o tomate certo aberto do jeito certo, e a faixa do corte parte da anatomia do fruto.
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I O Corte de Hoje
O tomate por dentro
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Nem todo tomate serve para vinagrete. O italiano, comprido e de parede grossa, é o melhor aliado: tem pouca semente, muita polpa firme e aguenta o corte em cubo pequeno sem desmanchar. O débora e o santa cruz, os oblongos mais comuns no mercado, também funcionam, com um pouco mais de trabalho na limpeza.
O tomate caqui, grande e achatado, fica para a salada em fatia. Ele tem câmaras largas cheias de semente e geleia, e no cubinho vira água antes da carne sair da grelha. O cereja rende um vinagrete bonito cortado em quatro, mas dá trabalho demais para uma tigela de família.
A PAREDE E AS CÂMARAS
Aberto ao meio no sentido da largura, o tomate mostra duas partes bem diferentes. Por fora fica o pericarpo (a parede carnuda do fruto, que vai da casca até o miolo), firme, vermelho e de sabor concentrado. Por dentro ficam os lóculos (as câmaras onde as sementes se alojam), cheios da geleia que envolve cada semente.
Essa geleia é quase toda água, com um pouco de acidez e aroma. Ela protege as sementes dentro do fruto, e na tigela faz o papel contrário ao desejado: escorre ao menor toque e dilui o tempero.
O pericarpo é a parte que interessa ao vinagrete. Ele segura a própria água presa dentro das células, mastiga crocante e dá cor viva ao prato. Tirar as câmaras deixa só a parede, e a tigela ganha em firmeza o que perde em volume.
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Vinagrete bom é feito da parede do tomate, e a geleia das sementes fica na tábua.
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COMO ESCOLHER NA BANCA
Procure tomate maduro, vermelho por igual e firme ao apertar com o polegar, com a pele lisa e brilhante. Tomate que cede fácil tem a parede amolecida e solta água até sem sal. Tomate verde demais tem polpa dura e ácida, sem o doce que equilibra o vinagre.
Pese na mão. O tomate bom parece mais pesado do que o tamanho sugere, sinal de polpa densa. Ombro verde perto do cabinho indica fruto colhido cedo, que pode ficar dois dias na fruteira para acertar a cor.
Guarde fora da geladeira até o dia do churrasco. O frio abaixo de uns dez graus estraga a textura da parede, que fica farinhenta, e apaga o aroma. Só o vinagrete pronto, já cortado, vai para a geladeira.
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II A Preparação
Colher na semente, faca no cubo
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A limpeza do tomate leva menos de um minuto por fruto e pede só faca afiada e uma colher de chá. Faca cega esmaga a parede ao cortar e solta o suco que a limpeza quer guardar.
Corte o tomate ao meio no sentido do comprimento, do cabinho até a ponta. Assim cada metade mostra as câmaras enfileiradas, e a colher entra por baixo da geleia sem rasgar a parede.
O PASSO A PASSO DA TÁBUA
| 1 |
Lave os tomates, seque bem com pano e tire o cabinho com a ponta da faca. |
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Corte cada tomate ao meio no comprimento e raspe as sementes e a geleia com a colher de chá, num pote separado. |
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Corte a parede limpa em tiras e depois em cubos pequenos, do tamanho de um grão de milho. |
| 4 |
Pique a cebola no mesmo tamanho e deixe de molho em água gelada por dez minutos, para tirar o ardor; escorra e seque no pano. |
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Junte o pimentão sem as nervuras brancas, o cheiro-verde picado, o vinagre e o azeite, e guarde a tigela coberta na geladeira, ainda sem sal. |
A CEBOLA TAMBÉM CHORA
A cebola solta menos água que o tomate, mas participa da poça. Picada e deixada de molho, ela perde parte dos compostos de enxofre (as substâncias que fazem arder o olho e a boca) e fica doce e crocante. Secar bem no pano depois do molho evita levar água da bacia para a tigela.
O pimentão entra sem as nervuras e sem as sementes pelo mesmo motivo do tomate: a parte branca de dentro é amarga e a parede é o que dá o estalo na mordida.
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A colher tira a água antes que ela chegue à tigela.
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A GELEIA NÃO VAI PARA O LIXO
O pote com sementes e geleia guarda boa parte do aroma do tomate. Passado na peneira, vira um suco ralo e perfumado que tempera molho de tomate, caldo de feijão ou a marinada de frango da semana.
Quem prefere nada de desperdício pode bater a geleia com uma colher de azeite e uma gota de vinagre e usar como molho de salada verde. O líquido que estragaria o vinagrete vira tempero em outro prato.
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